A Cortina
Avalie este texto:por Marcia Tatiane
À sombra da cortina, você reluzia infinitamente, em forma de Afrodite escultural, através da janela. Resplandecente, fulgural, esbanjando feminilidade nos gestos. Às dezoito horas, de todos os dias. Você chega se exibe, me provoca e vai embora como se nada tivesse acontecido.
Ainda ali a contemplar sua imagem, que me despertava os mais loucos e inesperados desejos, vontades e sensações de poder tocar no seu corpo. Acariciá-lo levemente com minhas mãos que na volúpia e ânsia de senti-la junto a mim, transcorria em um suor frio. Beijá-lo até preencher todos os espaços, sem deixar nenhum pedacinho sem meu cheiro, toque e calor, ao estarmos enroladas uma na outra.
Duros como se ela sentisse prazer no que estava fazendo, os bicos dos seios, empinados, transbordavam junto às demais partes do corpo, me deixavam anestesiada e meu clitóris molhado de tanto prazer. Éramos nós duas. Você e eu, uma excitando a outra, usando todas as formas para provocar e seduzir de maneira inesperada a libido de ambas. Sonhava com ela o tempo todo. Tanto em lugares convencionais como motel, desde os mais caros, até os mais chinfrins, e você criando uma personagem de acordo com cada um deles.
Aquela cortina era o véu que a escondia, deixava-a segura de que você só era vista por mim. Musa dos meus sonhos me fascinava vê-la dançar, exibir-se de inúmeras formas, sem pudor, e todos os tabus ali eram quebrados. Do meu sexto andar, podia tê-la ao alcance dos meus olhos, todos os dias, era só espiar e ver sua desenvoltura, performances através da cortina.
Débora Cristina Mutarelli Caffezzano, um bofinho que era considerado sério, responsável, e de uma maturidade precoce, correta e íntegra, aos vinte anos de idade, simplesmente não existia da porta do meu apartamento pra dentro, no centro de São Paulo. No qual chegava, fazia o que precisava rapidamente, para não perder tempo e deixar de ver minha perdição, ao fazer-me subir pelas paredes, com tamanho tesão.
Os meses se passaram, e já começava a ficar vendo-a em outras mulheres no trabalho. Ao entrar no banheiro da empresa, escutei uns sons, então olhei pela fechadura da cabine individual. Pois vi minha colega de trabalho se masturbando, e ficava imaginando eu e a Odalisca que me virava a cabeça de tamanha vontade de tê-la nos meus braços.
Ergo-me imediatamente e ajo como se não tivesse visto nada, lavo o rosto demoradamente, enxugo-o e volto para meu serviço. Ela não me sai da cabeça. Queria conhecê-la, saber nome, o que gosta de fazer e o melhor como prefere que aconteça na cama, quais posições eróticas. Ela mexia com minha libido, ao se apresentar utilizando várias fantasias, atrás daquele véu que a tornava mais misteriosa a cada dia que passava.
Com o pensamento voltado pra ela, vou pra balada, afinal é Sábado, tudo pode acontecer e mudar. Final de tarde, típico do verão, um resto de sol ainda refletia no prédio, eu na varanda sentada tomando meu licor, suspirava à espera da minha Vênus alada do outro lado da rua. As horas se passaram, até que entrei e fui começar a me arrumar.
Dezenove horas e trinta minutos, abro o chuveiro, deixo a água cair um pouco. Enquanto isso eu contemplo minha imagem no espelho. Apalpo meus seios, deixo a mão deslizar pelas pernas, até que decido entrar debaixo da água que já está mais fresca. Sinto-a dominar mansamente cada parte do meu corpo, de modo único, prazerosamente avassaladora e sensual.
Ao sair do banho, me olho novamente no espelho, enxugo-me e vou me vestir. O que não demoro muito para fazer. Pois é só vestir o top, a cueca, a bermuda, o kit básico de desodorante, perfume, camiseta, tênis, meia e boné que não pode faltar. Em poucos minutos já estou na Avenida Vieira de Carvalho, encontro umas amigas e vamos para o fervo. Assim que adentramos o recinto, o garçom nos arruma uma mesa para três pessoas e então pedimos uns drinks enquanto a noite só começava.
Passadas algumas horas ali no barzinho, minhas amigas já arranjadas e eu decidimos ir para uma casa noturna, próximo dali. Descemos do mezanino, pagamos as comandas e saímos. O ambiente praticamente tomado de muitas mulheres, eu me sentia um sheik no deserto, com várias para escolher. Mas de repente surge uma entre a multidão, a estrela da noite, a stripper estava enrolada em um véu, que apenas viam-se seus olhos, ali hipnotizando a platéia que de boca aberta a contemplava, e eu aos poucos me aproximava do palco. Ela e eu cara-a-cara, uma admirando a outra. Findara-se a apresentação, e ela jogou um turbante no qual estava enrolada, e a sortuda foi eu que o agarrou, e ainda viu uma piscadinha, e o rosto sem ser desvendado durante a apresentação.
Diziam que ela sempre se apresentava assim, todas as suas fantasias ela cobria o rosto e que ninguém sabia como ele era. Comecei a imaginar que ela era a Vênus que habitava meus sonhos mais secretos e íntimos. Acompanhei-a ir embora com o olhar, até que a porta se fechou e os seguranças ficaram na frente até a dançarina sumir na estrada.
Durante todos os finais de semana fui vista na casa noturna, até que um dia, eu resolvi segui-la, pois chamei um taxi, e atrás do carro que ela estava, descobri que ela morava na frente do meu prédio. Meu coração disparou, comecei a suar frio, não sabia como reagir. Paguei o taxi e entrei logo depois dela, aproveitei a ausência do porteiro, e quando desci do elevador, percebo através de uma janela, que era o andar de frente ao meu do outro lado da rua.
Suspirei fundo diante da porta do apartamento dela, com a mão prestes a bater, ela abre a porta. Sem reação nenhuma, estava eu lá parada diante da mulher que me encantava e atrás de uma máscara que me seduzia ainda mais. Pude sentir nessa hora meu clitóris extremamente molhado em uma mistura de paixão com excitação, uma vontade reprimida que estava prestes a vir à tona naquele momento.
Gentilmente me convidou para entrar, sem cerimônias aceitei o convite, e pude observar a cortina lá que por tanto tempo tornara-se a barreira entre nós. Ela me ofereceu uma bebida, peguei e ficamos a nos olhar sentadas no sofá, ela de máscara, sem esboçar cansaço dela ou vontade de tirar. Algumas horas depois colocando um DVD da Ana Carolina para ouvir, me confessou que sabia que eu a via, e que achava fascinante, saber que era desejada por alguém. Mas que se ela se mostrasse a mim, eu me decepcionaria muito, por ter feito isso com ela, ter mexido com seus hormônios, suas fantasias mias íntimas. Sem mais delongas ia me aproximando dela, procurando as palavras certas. Ela fugiu e se colocou atrás da cortina, que tanto me escondeu seu corpo, nossas libidos, e sensações que começavam a explodir agora. Agarrei-a de uma vez, e beijei-a como nunca havia beijado ninguém, aos poucos ela ia me abraçando, até que acariciava minhas costas com suas unhas enormes.
Fizemos amor, com uma trilha sonora perfeita, nos acariciamos,beijamos, apalpamos, lambemos uma a vagina da outra, num misto de ternura e prazer. Ela fez todas as posições possíveis e inigualáveis, tudo que eu sempre sonhara e desejara presa em meus braços, suas pernas entrelaçadas nas minhas, a beijei de cima a baixo, curtindo cada milímetro do seu corpo, a penetrei suavemente com meus dedos que me faziam gozar junto com ela. Acariciei-a até ela dormir e eu a coloquei deitada na cama e a admirava, contemplava aquela imagem que para mim tinha parado no tempo.
Um lindo sol coroava aquela manhã, ao fechar a noite dos deuses que eu havia tido. No entanto ela já não estava mais na cama, procurei-a na cozinha, na sala, no banheiro e até na varanda. Quando voltei ao quarto vi um bilhete pendurado no guarda-roupa, que em singelas e poucas palavras dizia:
Débora,
Desculpa ter ido embora assim, mas precisava porque não quero lhe fazer sofrer, guarde o melhor de mim na sua memória, da qual tenho certeza que não mais sairei. Sei das loucuras que gostaria de fazer comigo, no entanto, fizemos uma parte delas ontem a noite. Embora saiba que não tenha sido o bastante, mas você jamais esquecerá.
Assinado: Sua Vênus
PS: Nunca fiz sexo tão gostoso com ninguém assim, você me levou ao céu, ultrapassou os oceanos e o infinito.
Beijos!
Depois de terminada a carta, Débora vai até a sala, postada no centro faz um giro trezentos e sessenta graus, e fica alguns minutos ali. Olha a cortina que balançava com o vento, pega-a e acaricia-a como se fosse sua Afrodite, e fica ali lembrando aquela noite que jamais sairá da sua cabeça.
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Maravilhoso este conto, nos leva a imaginar e sentir cada linha escrita como se fossemos parte da história.
Um conto com começo, meio e fim sem deixar o leitor na dúvida do que aconteceu.
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