Casto Pecado
Avalie este texto:por Sarasvati
Charlotte suspirou, encarando a nova dama de companhia. Não bastasse ela a acompanhar como um cão de guarda a cada canto do nobre palacete francês, ainda se atrevia a tratá-la como um bebê.
- Acho que já deixei claro – A jovem tentava manter um tom de voz digno – que sei me banhar sozinha, alimento-me sozinha e conheço cada canto deste lugar. Não me afogarei na tina, não passarei fome e certamente não irei me perder por entre os corredores.
- Ordens do Conde, mademoiselle – Limitava-se a entoar calmamente a serva.
O fim da discussão era previsível de tanto que se repetira durante aquela semana. Charlotte invariavelmente bufava e se recolhia a seus aposentos. Era como discutir com uma porta, não adiantava esperar qualquer resultado. Detestava aquela jovem que seu pai, o pomposo Conde de Provence, designara para vigiá-la. Não compreendia; sempre fora a donzela mais recatada, mais obediente, mais… inexpressiva de toda a região, quiçá da França inteira. Sequer se rebelara quando, um mês antes, em seu aniversário de dezoito anos, fora comunicada de que em três meses se casaria com seu insuportável primo.
Pensando bem, deitada em seu leito enquanto fitava languidamente o teto, o pai sempre fora mesmo controlador, ainda que jamais tivesse dado motivo para tal. O que a irritava mesmo não era o fato de ser controlada por uma criada. O problema era a criada.
Odiava o fato de se perturbar tanto sempre que lidava com a insolente Camille. Insolente, sim; porque, a despeito das palavras educadas e subservientes, aquela voz baixa, algo aveludada, parecia uma afronta. Aliás, Camille por si já parecia uma afronta a tudo o que Charlotte tinha como certo no mundo…
A noite ia avançando, mas a jovem não tinha sono. Viu-se refletindo sobre aquela estranha mulher. Aparentava certamente ter menos de uns vinte e cinco anos. Não era comum na França, em pleno século XVII, uma mulher tão jovem e bonita ainda solteira. Onde estariam os pais dela? Acaso não quereriam perpetuar o próprio sangue? Lá se via, aos olhos de Charlotte, a decadência da moral e dos bons costumes…
A porta se abriu.
- Vim verificar se mademoiselle precisa de mais alguma coisa antes de dormir.
Aquele arrepio novamente.
- Acaso não saber bater à porta?! – Charlotte tentou aparentar frieza, sentando-se em sua cama.
Ali, parada à frente da porta, Charlotte julgou ver a decadência da presença de Deus entre os homens. Não podiam permitir que uma mulher daquela estirpe andasse livre por aí sem ao menos passar pelo crivo da Santa Inquisição. Aqueles olhos verdes, intensos… aqueles cabelos ruivos que não lembravam a Charlotte o fogo, mas a remetia pecaminosamente ao sangue. Aquela pele clara, livre das marcas degradantes de exposição ao Sol, que a discernia de camponeses. Aquela mulher parada ali, insolente ao fitá-la com tanta intensidade, desconcertava a donzela.
Camille, com o rosto inexpressivo, adentrou de vez o recinto, fechando cuidadosamente a porta e passando a tranca. Por algum motivo, aquele gesto a fez corar intensamente; tinha uma calma contida, os movimentos controlados mas que pareciam carregar uma energia intensa e própria.
- Que estás fazendo? – A voz de Charlotte saiu um pouco mais aguda.
- Mademoiselle não está com calor? – Camille indagou em voz baixa, aproximando-se lentamente da cama de sua senhora – Essa vestimenta longa irá causar-te desconforto, minha menina…
Charlotte corou violentamente quando a serviçal se sentou a seu lado no leito e lhe acariciou o rosto com inegável carinho. Que era aquilo, agora? O que aquela mulher pretendia fazer?
- Vês, minha querida? Estás quente… – sorriu, beijando-lhe delicadamente a testa.
Charlotte sentiu-se queimar. Que feitiçaria era aquela? Por que aqueles toques tão delicados faziam tamanho estrago dentro de si? Fechou os olhos enlevada, deixou Camille afagar os longos fios dourados, penteando-os com os dedos. A voz da outra agora era apenas um sussurro macio.
- Mon ange… não gosto de brigar contigo… – Dizia ela com voz de veludo, beijando-lhe a face – Prefiro-te assim…
- Pare… – O pedido sussurrado de Charlotte foi sumariamente ignorado…
Sentiu um toque macio em seus lábios e sua mente girou. Eram outros lábios… lábios femininos, delicados e curvados em um ligeiro sorriso. Charlotte ofegou e abriu os olhos azuis tão claros, surpreendendo-se em ver orbes verdes bem diante de si. Abertos e intensos, parecendo quererem devorar cada reação da donzela.
Os braços de Camille a envolveram delicados, como se temessem partir em pedaços aquele anjo loiro que tinham em seu poder. Sentiu a ruiva colar os corpos enquanto aprofundava o beijo, os seios se roçando de leve como se buscassem um encaixe perfeito. Charlotte fechou os olhos sentindo-se estranhamente fraca, lânguida… vulnerável àquela mulher que a tomava para si. Não pôde sequer opor resistência quando, intrepidamente, a mais velha a fez se deitar na cama.
Sentiu sua pele arder ao sentir que sua dama de companhia despia o camisolão branco e rendado. Camille a desnudava com vagar, parecendo saborear aquele estado de transe em que mergulhara sua senhora. Parecia ter levado uma deliciosa eternidade até o corpo pálido se mostrar inteiramente nu, iluminado apenas pelas velas e pelo luar que entrava na janela.
Charlotte mais sentiu do que ouviu a outra se afastar e entreabriu os olhos. Camille se despia devagar, consciente dos olhos claros fixos em cada curva de seu corpo. Peça após peça, o vestido pesado, as faixas, o espartilho, tudo indo ao chão. Camille sorriu e se deitou ao lado de Charlotte, retribuindo o olhar.
Ali, com os cabelos ruivos espalhados pelo travesseiro branco, era que Camille parecia ainda mais um demônio aos olhos de Charlotte. Assumira uma posição lânguida, os olhos cintilando fixos no outro corpo, o lábio inferior mordido. A mão deslizou suavemente pelo braço nu da loira, sentindo-a se arrepiar.
- Não estás habituada ao toque – murmurou Camille com um sorriso – Tua pele é tão macia…! E se esquenta a cada toque, não vês? És um anjo… e se não sabes… – soergueu-se na cama, debruçando-se sobre ela – quero tua pureza para mim…
Naquela noite, anjo e demônio coabitaram o mesmo leito. Mãos, lábios, pele contra pele em um acariciar torturante, em um roçar lúbrico. Os fios sangue e ouro se mesclavam em uma mesma atmosfera. Charlotte agora sabia o porquê de o Inferno ser um lugar imerso em chamas… pecar era algo quente, não tinha outra forma de definir. Quente e muito fácil… uma vez que se caísse nas garras de um demônio que não tinha chifres, rabo e presas horrendas.
Camille era o demônio perfeito, um demônio capaz de levar qualquer pessoa à perdição dos sentidos. Os lábios rubros, a voz macia, os olhos intensos, as mãos atrevidas… uma mulher ardente que exalava luxúria por todos os poros. E um sorriso que se abria a cada vez que Charlotte se derretia… e não foram poucas as vezes em que a ruiva fizera o anjo se arquear na cama com um gemido estrangulado, os lábios entreabertos deixando escapar um gemido estrangulado, os olhos fechados em enlevo. Era uma imagem que mexia com os desejos mais intensos de Camille, mas ao mesmo tempo parecia tão divina! A criada não conseguia ver nada de errado em tocá-la, acarinhá-la, em lhe dar prazer… não se o resultado era aquele anjo em êxtase junto a si.
Quando a Lua já ia alta no céu e as duas amantes finalmente se abandonaram satisfeitas sobre o leito… Charlotte afundou o rosto afogueado no peito de Camille. Ainda tremia, interiorizando aos poucos as sensações intensas e tumultuadas, o turbilhão de emoções que jamais acreditara experimentar, nem mesmo com seu futuro marido… que diria com uma mulher? Todavia, recebeu de bom grado os afagos carinhosos em seus cabelos, não tardando a adormecer. Camille ainda se manteve um bom tempo desperta, apreciando o corpo macio que tinha contra si, antes de também se entregar ao sono.
O casamento não tardou a acontecer, e Charlotte logo descobriu que não encontraria carinho ou amor naquele leito que, embora sacramentado pelo casamento, causava-lhe asco. Era outra a cama que parecia sagrada a seus olhos, mesmo que nela dormisse um demônio de cabelos vermelhos. E, nas longas viagens do marido, era naquele lugar que se aninhava. Era ali que encontrava, não apenas o prazer, mas um sentimento único que não conseguia chamar de amor, mas que lhe parecia, em essência, a mesma coisa sublime. Ali o pecado da carne não conspurcava a alma, pois o prazer se tingia de carinho, cumplicidade…
O demônio suscitava sentimentos celestiais; o anjo despertava instintos primais. E ali, a salvo da Santa Fogueira sob o manto negro do segredo, os corpos enlaçados eram a completude de seres tão diametralmente opostos… que eram iguais. Mulheres nascidas em corpos que impossibilitavam a união matrimonial, talvez justamente para preservar dos outros mortais a paixão incompreensível que refulgia em suas almas…
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“…talvez justamente para preservar dos outros mortais a paixão incompreensível que refulgia em suas almas…”
Adorei…mto bom!!!
Além de agradecer pelos votos e pelo comentário, gostaria de salientar a escolha dos nomes das personagens – não pude, em virtude do limite de caracteres, destacar a origem (intencional) desses nomes.
- Charlotte: “aquela que é forte”. Parece estranho, em vista da inexperiência com que a personagem foi retratada… mas se pode perceber que a “inocência” de Charlotte nada tem a ver com fraqueza; que sua aparente submissão aos costumes da família esconde uma resistência interna, emocional. Não sei se fui clara a esse respeito.
- Camille: essa eu adorei… seria uma “nascida livre, de boa família, que é serva em templos religiosos”, embora em uma das fontes eu tenha encontrado a ressalva “templos pagãos”. Um tanto irônico a princípio, admito… mas a descrição de Camille ressalta isso: a pele clara, não-característica de trabalhadoras campais; os modos algo corteses, suaves. Além disso, a clara insubordinação aos costumes familiares católicos (em especial relacionados ao matrimônio precoce, como Charlotte se questiona, e à própria sexualidade).
Existe uma certa nuance em Camille que a permeia com uma aura que vai além de “iniciadora sexual de donzelas”… tentei fazer com que a relação entre elas fosse quase um rito em si, sacro a seu modo.
Ah, sim: como devem ter percebido, a aparência de cada uma foi pensada de forma a transmitir essas noções de anjo (habitualmente caracterizados como loiros de olhos azuis) e demônio (na Idade Média, mulheres ruivas eram habitualmente malvistas – sinal de mulheres de personalidade forte, insubordinadas, sinal até mesmo de bruxaria; diz-se que a Rainha Elizabeth, ruiva, quis ser pintada loira para ressaltar sua natureza “cândida”).
Agradeço mais uma vez a todos (ou todas) que apreciaram o meu texto, e pela oportunidade de publicá-lo na Internet. Um beijo e boas festas!
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