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Infinita Saudade

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22 Dezembro 2009 as 2:46 am 385 views Um ComentarioPrint This Post Print This Post

por Mabel R.

Chovia. Enquanto olhava os pingos da chuva escorrendo pelo vidro da janela lembrava-me de que dias assim eram os seus preferidos. Dizia que a natureza estava chorando e que ela entendia o porquê. Eu a admirava pela simplicidade como ela via a vida se desenrolar. Perdia-me em seus olhos de um azul violeta que ficavam com um tom acinzentado quando nos amávamos tal qual o mar quando uma tempestade se aproxima. E sua voz e suas mãos que me acalmavam e consolavam.

Lembro-me da primeira vez que nos encontramos. Estava na sétima série do primeiro grau e a professora de Português, nossa madrinha naquele ano, apresentou a nova colega que vinha transferida de Campinas:

- Essa é a nova colega de vocês. Seu nome é Marília. Seja bem-vinda.

No recreio ela veio conversar comigo, pois simpatizou com o meu silêncio. Disse que já estava acostumada a mudar de escola com freqüência, pois o pai era militar. E eu, com certeza, não me sentiria tão tranqüila com mudanças, pois sempre fui muito tímida. E dessa conversa, sentada em um banco da escola, nasceu a nossa amizade. Eu a ajudava com os estudos de português e história e ela me ajudava com matemática. Sempre passava com notas baixas em matemática.

Passaram-se três anos e o pai dela foi transferido novamente. Naquela época não tínhamos computador e muito menos internet. Então combinamos que ela escreveria uma carta me mandando o endereço e assim continuaríamos a nos falar e manteríamos a nossa amizade. Mas essa carta nunca chegou e com o tempo e a vida ficando cada vez mais ocupada, esqueci da minha maior amiga na adolescência.

Passei no vestibular para medicina. Cursei e fiz especialização em Medicina Intensiva. Sabia que lutaria com a morte todos os dias e que, ao mesmo tempo, poderia salvar vidas ou fazer tudo ao meu alcance para que as pessoas morressem com dignidade. Em março de 2001, viajei a Florianópolis para um Congresso Latino-Americano e quando estava na sala para embarcar de volta a Porto Alegre, ouço uma voz:

- Laura?

Virei-me e não pude conter um sorriso. Reconheci aqueles olhos azuis, a voz estava um pouco mais grave e os cabelos continuavam castanho-escuros e lisos. Perguntei:

-Marília?

Ela abraçou-me e olhando nos meus olhos disse: Você continua igual, um pouco mais alta é verdade, mas não perdeu aquele olhar compenetrado e o cabelo castanho-claro ondulado. Menina, eu reconheceria você em qualquer lugar do mundo.

Parecia que o tempo não havia transcorrido. Trocamos números de celular. Ela me disse que era arquiteta e que tinha se especializado em urbanismo. Contou-me também que estava em Florianópolis para acompanhar uma obra do escritório em que trabalhava em São Paulo.

A partir do encontro viramos duas tagarelas. Conversávamos pelo celular, MSN e email. Fofocávamos sobre nossos trabalhos e sobre a vida amorosa; nós duas éramos competentes no trabalho, mas uns fracassos no amor. Um dia ela me contou que havia recebido uma proposta irrecusável de um escritório de arquitetura de Porto Alegre e teria que procurar um cantinho para ela. Disse-lhe que não se preocupasse, pois o meu apartamento era relativamente espaçoso e que ela poderia ficar em um dos quartos até encontrar um apartamento para ela.

Passadas duas semanas fui buscá-la no aeroporto e sentia a mesma felicidade do reencontro em Florianópolis. Pegamos as malas e voltamos para o meu apartamento. Mostrei-lhe o quarto e o banheiro e fui preparar um café. Conversamos sobre banalidades e fui dormir mais cedo, pois tinha plantão no dia seguinte.

Aquele plantão foi um dos piores da minha vida. Uma menina de 10 anos estava internada no leito 9. Fizemos de tudo para salvá-la, mas seu corpo já não respondia a mais nenhum medicamento. Aquela morte me arrasou. Crianças não deviam morrer; elas têm uma vida pela frente. Quando cheguei em casa à noite, sentia-me como se o peso do mundo estivesse todo sobre os meus ombros. A Marília logo percebeu o meu estado e foi preparar um chá, sentei-me no sofá e ela, enquanto a água esquentava, sentou-se ao meu lado e abraçou-me. Um pranto reprimido por essa e outras perdas irrompeu e comecei a soluçar. Enquanto me abraçava e mexia no meu cabelo, dizia:

- Chora bastante, Laura. Isso vai te fazer bem.

Nesse momento, afastei o meu rosto e olhei diretamente para aqueles olhos azuis e de repente estávamos nos beijando como se as nossas vidas dependessem disso. Eu a segurei pela nuca para aprofundar o beijo e ela acariciava as minhas costas. Separamo-nos quando a chaleira chiou e mergulhamos uma no olhar da outra tentando entender o que havia acontecido. Marília foi a primeira a quebrar o silêncio, dizendo:

- Vou preparar o chá. Agora nós duas precisamos dele. Vai ser chá de camomila, pois precisamos nos acalmar.

Ela sempre com seu lado prático e bem-humorado foi para cozinha e logo retornou com duas canecas com o chá fumegante e cheiroso. Bebemos um gole em silêncio e nos olhamos. Não conseguia desviar o meu olhar da boca dela e ela simplesmente tocou a minha boca com o seu polegar. Ficamos assim por um longo tempo, só nos olhando, sem dizer nada. O chá ficou morno e não sentia mais vontade de bebê-lo; só tinha vontade de sentir os lábios dela sobre os meus e saber até onde iríamos. Nessa hora pareceu que ela tinha lido meu pensamento, colocou a caneca dela sobre a mesa de centro, tirou a caneca das minhas mãos e colocou-a ao lado da dela. Voltou-se pra mim e passou sua mão pelo meu rosto, aproximou-se e disse:

- Laura, eu não sei o que está acontecendo, mas eu nunca me senti assim; uma ansiedade e felicidade que estão mexendo comigo de um jeito que nenhum dos meus namorados conseguiu. Nunca um beijo fez isso comigo, até agora.

- Marília, eu também não consigo entender, mas esse beijo me deu uma paz que há muito tempo não sentia. E eu não posso negar que estou com vontade de te beijar de novo.

Marília não esperou um segundo para voltar a me beijar e eu correspondia com a mesma intensidade, abraçando-a. Quando percebemos, estávamos nuas, descobrindo como saciar aquele desejo que parecia não ter fim. Passamos a noite nos amando, rindo, conversando e depois dormimos abraçadas.

Quando acordei, ela já tinha preparado o café, pois ela tinha que trabalhar. Como estava de folga aquele dia, aproveitei e fui ao supermercado reabastecer a geladeira e comprar guloseimas, champanhe e vinho. Comprei flores para dar-lhe quando chegasse em casa. Éramos duas mulheres que finalmente tínhamos atingindo a realização profissional e amorosa. Formávamos um belo casal. Viajávamos juntas nos finais de semana livres, saíamos com amigos e amigas, mas sempre fomos discretas com o nosso relacionamento, pois ambas trabalhávamos em áreas dominadas por pessoas bastante preconceituosas.

Despertei de minhas lembranças com um trovão!

Hoje faz um ano que me sinto um corpo vazio com movimentos automáticos Ela me deixou. Fizemos de tudo para nos manter unidas, mas não conseguimos superar o obstáculo que surgiu. Recordava de todos os momentos que havíamos passado juntas e mostrava-lhes as fotos como prova de todo o nosso amor. Os bilhetes que ela escrevia e deixava no travesseiro dela quando tinha que viajar a trabalho e não queria me despertar, pois ela dizia que amava ver-me dormindo tão serenamente. Mostrava-lhes todos os anéis que confeccionamos para comemorar cada ano juntas.

Mas de nada adiantou. Ela se despediu de mim em um belo dia de sol e de temperatura amena. Lágrimas corriam pelo meu rosto e com uma dor no peito sabia que não teria mais aquele corpo pra me aquecer no inverno, aquela risada gostosa que prenunciava momentos de prazer, aquela boca pra beijar e ser beijada, as costas pra acariciar e aquela alma que me trazia tanta paz.

Despedi-me com um beijo na testa como ela tanto gostava e a vi partir. Perguntava-me qual a razão de tudo aquilo. Hoje, sei que o importante é que vivemos um grande amor por dez maravilhosos anos. E quem sabe, quando for a minha vez, não seja ela que estará esperando a minha chegada?

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Um Comentario »

  • Josi disse:

    Poxa, ñ sei nem oq falar,sua historia é tocante,e sei como vc se sentir,tb ja perdi alguem que muito amei,mas olha,eu pensei que ñ amaria mas e como a vida sempre esta nos dando surpresas encontrei uma outra pessoa,e digo-lhe que doi muito,mas guarde apenas as lembranças boas,e por mas dificil que seja tente novamente ser feliz,fique com deus bjs

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